Do abismo à escadaria

Vida “Mortal”

Arcádia tem um senso de humor que é bastante indefinido aos padrões humanos. Quando um de seus filhos reencarna na terra, seja tocado, seja um espírito das torre ou mesmo um Lorde Renascido, sinais bastante característicos ao que nosso mundo chama de “superstição”.

Quando Bruno nasceu, não foi diferente. Seu pai adquiriu um soluço incurável na sala de aula, todos os chocolates da lembrança de nascimento do filho de um político na mesma maternidade azedaram e treze espelhos quebraram em sete pedaços proporcionais à constante neperiana. Ao que parece, a existência queria deixar claro: Um filho do Belo Reino estava chegando.

Nasceu no ano seguinte que seus pais retornaram ao Brasil, fruto da abertura política iniciada nos anos finais da Ditadura Militar. Seus pais, Ptolomeu Yago e Maria Soares Yago eram respectivamente um microbiólogo pesquisador e professora de Linguística na Universidade de Brasília. Pelas idéias mais esclarecidas que iam contra o regime corrente, foram expulsos do país e moraram algum tempo na Iugoslávia, terra da mãe de Ptolomeu.

Filho de dois professores, Bruno teve uma educação ao mesmo tempo liberal e exclusiva. Não costumava assistir televisão por influência dos pais, o que fazia com que faltasse assunto com os colegas de infância, restando tempo apenas para as brincadeiras. Gostava bastante de observar a dinâmica de como os amigos interagiam, sem nem imaginar que estivesse fazendo isso ou mesmo o porquê. Apenas gostava de passar o tempo assim. Com o tempo, já no ginásio, a educação dos pais foi fazendo a diferença e o garoto passou a encarar as aulas e a didática dos professores como entediantes. Não entendia a causa de uma explicação tão superficial e que em nada instigava a curiosidade, e ao mesmo tempo ficava pasmo com a falta de interesse da maioria dos seus colegas.

Nessa época, passou a ver bem menos os pais. A crise gigantesca que o desgoverno dos militares jogou o país fez com que a inflação galopante atingisse o estilo de vida do casal, que foi obrigado a deixar de se dedicar à pesquisa e concentrar nas aulas para ter uma renda maior, o que tomava bastante do tempo deles. Bruno passava o tempo estudando, lendo alguns livros de história e brincando com os irmãos ou amigos do condomínio. Gostava de planejar e liderar nas brincadeiras, muitas vezes perdendo muito tempo nisso do que realmente brincando.

Já no colegial, entrou para o time de futebol de sua classe, e sua interação com as pessoas começou a aumentar, exponencialmente. Tinha carisma para convencer a dedicação de seu time e um espírito de liderança que inspirava aqueles ao seu redor de realmente focarem e darem tudo de si dentro da quadra. O time foi muito bem, ganhando o interclasses na escola e chegando a final do campeonato municipal. A liderança de Bruno, porém, não foi suficiente para conquistarem o campeonato, com o time perdendo para o de uma escola rival, realmente superior.

Pode-se dizer que foi a primeira vez que o garoto teve o orgulho ferido. Encheu a cara e fumou algumas coisas mais na festa que teve após a partida, para tentar esquecer a derrota. No meio da “chapação”, com os sentidos alterados, teve uma peculiar experiência: uma música, com forte marcação de tambores, porém melodiosa, como se fossem bongôs, juntamente com um canto e um acompanhamento de uma flauta, ou assovio. Ele sabia que não era a música do rádio que animava a festa e, confuso, resolveu procurar, porém sem conseguir encontrar. A música, a melodia e a marcação, porém, não saiam de sua cabeça.

Voltou para casa um tanto frustrado. Tanto a derrota quanto a curiosidade. Era tarde da noite, começo da madrugada, e algo estranho pairava no ar. A melodia, mesmo os cantos, os tempos vazios e a marcação, ficava em sua cabeça. Quando virou a esquina de casa, porém, esses devaneios sobre o que ocorreu sumiram: sua casa estava aberta, e diversos carros, de polícia inclusos, estavam na frente dela.

Bruno entra correndo, e vê sua mãe sentada com a irmã mais nova dormindo em seu colo, o rosto visivelmente mareado de choro, conversando com um policial. Pensa em correr para peguntar o que está acontecendo, mas seu tio o segura no caminho e diz o que o garoto já deduzia, mas relutava em aceitar: “Seu pai está morto! Foi assassinado!

Os outros dias (e anos antes dele entrar na faculdade) foram um tormento. A investigação sobre o que ocorria dava voltas e voltas, progredia e regredia. Bruno ficou mais frio e seco na escola, ao mesmo tempo que tentava se distrair com os poucos amigos mais próximos. Um destes era um professor chamado Vinícius, cujo senso crítico apuradíssimo acabou fazendo com que Bruno o admirasse. O interesse do rapaz nas ciências humanas, que já era grande, acabou apenas aumentando com esse contato.

Por influência do professor, prestou vestibular para a área de ciências sociais aplicadas, e foi aprovado. A massiva rotina dos primeiros semestres da faculdade (festas e estudos) fez com que ele acabasse esquecendo um pouco das eternas investigações, inquéritos relativos à morte do pai. Bruno achava que por estudar na Universidade onde ele efetuava suas pesquisas, as memórias o iriam atrapalhar, mas realmente sobrava pouco tempo para isso ocorrer.

Numa cervejada, já no terceiro semestre, Bruno e uma amiga com quem vinha ficando, Joyce, resolveram nadar de madrugada. Bêbados, e com os sentidos mais alterados devido à maconha, começaram dançar e se engraçar no lago da chácara. Ele então, no meio de beijos, escuta os mesmos instrumentos, cânticos e tambores de antes, e as memórias daquele dia começam a voltar. Não as cenas horríveis da morte do pai, e sim a memória sonora daquela noite pós jogo. Mesmo sendo uma música diferente, Bruno se concentrava em suas semelhanças, sutis, mas existentes. Subitamente, um frio o invade, e um forte grito no meio da música: Era Joyce, gritando desesperada. Seguindo o Som, ele mergulhou para o fundo do lago, e lá ficou tempo demais, engolindo água e começando a se afogar. Sua última memória foi a Lua Crescente e Joyce gritando por alguém que soubesse nadar. Depois, apenas escuridão, com uma leve, quase diáfana, música.

Outro mundo, outras vidas….dragões, espinhos e magos loucos?

O céu extremamente alaranjado, típico do crepúsculo de outono, com as nuvens brilhando num bronze reconfortante, e a brisa fria do começo da noite, juntamente com um forte odor amadeirado são as primeiras impressões que chegam aos sentidos quando estes são recobrados por Bruno. Ainda anestesiado, mas reconfortado por esse cenário, ele passa alguns minutos no chão, sem qualquer memória sobre a festa, Joyce e ele quase ter morrido afogado.

Tomado pela sensação pacífica, resolve se levantar para apreciar o cenário ao seu redor. Lembra vagamente que o por do sol no cerrado nunca era tão belo assim, e principalmente que não haviam árvores grandes como essas no cerrado. Sem se importar muito com isso, levanta e começar a olhar em volta, contemplando a bela paisagem, o rio a seu lado, as folhas caindo com o vento e finalmente a imagem que o desconecta de sua apreciação: Uma garota, com as vestes rasgadas e bastante suja, caída inconsciente junto ao chão.

Bruno corre até ela, que não parecia machucada, embora a sujeira em seu corpo fizesse parecer com que um caminhão inteiro de terra tivesse sido jogado sobre sua cabeça. Tenta fazer com que ela volte a si, mas sem muito sucesso, até decidir arrasta-la próximo ao rio e molhar seu rosto. Funciona e ela acorda assustada, num total oposto a paz de espírito dele minutos atrás.

- Socorro…. quem…. onde eu estou? CADE MEUS…… QUE LUGAR É ESSEQUEM É VOCÊ???

- Acalme-se moça, eu sei tanto quanto você, acordei agora pouco também. O que te aconteceu? Você parece ter saído debaixo da terra.

- Eu, eu – e ela subitamente fica consciente da terra toda em seu corpo, limpando instintivamente – não sei! Eu estava com meus amigos me preparando para viajar e….

A garota fica em silêncio. Bruno observa os olhos verdes e penetrantes dela ao que parece fixados em algo atrás dele. Sem nada dizer ela começa a caminhar, como que hipnotizada, passando por ele e acelerando progressivamente o passo. Ao se virar para chama-la, não consegue pronunciar nada. Também fica em silêncio, contemplando o que parece ser uma imensa e imponente construção, não muito longe dali. Trepadeiras de espinhos e diversas outras folhas cobrem a maioria de sua superfície, mas mesmo com o sol já em seus últimos raios no horizonte, é possível ver sua vermelha reflexão numa superfície prateada, quase que um espelho.

Os pensamentos de Bruno no começo eram apenas de esplendor, buscando adjetivos para racionalizar o quanto estava maravilhado com aquilo. Lentamente, porém, eles foram cessando, na medida em que olhava para cada detalhe, cada flor, cada espinho e cada brecha onde a luz prateada misturada com o sol refletia. No lugar deles, uma nova melodia, suave com a anterior, porém mais intensa, parecia instigar sua curiosidade. Sem pensar em nada, nem reparar em mais nada, ele segue até a essa misteriosa torre.

Todos os seu sentidos são tomados quando ele chega na construção em si. A beleza visual dos elementos mesopotâmicos com diversas plantas e trepadeiras de todo o tipo, especialmente espinhadas, contornando o granito e o mármore. Detalhes em ouro e especialmente em prata, uma prata tão brilhante como ele jamais havia visto. O som melodioso da música que escutava em sua mente e que agora se misturava com os pássaros e outros animais e as gotas de água que caiam de diversas fontes ao redor e dentro da magnificente torre. O aroma amadeirado das folhas misturado ao de doces incensos e frutas que caiam ao chão, que ao mesmo tempo penetravam tão fundo nos sentidos que faziam que a língua captasse o gosto delas, mesmo apenas com o aroma.

Toda essa sinestesia levou bruno a um transe, e em meio a esse transe ele vê a mesma garota ferida e de roupas rasgadas de antes adentrando a porta principal. Bruno porém prefere continuar perdido nas suas sensações, no transe de sentidos que experimentava. As risadas, na verdade gargalhadas da moça se misturam à sinfonia de sons alguns minutos depois, e isso é suficiente para retirar parte do jovem do transe, e voltar a atiçar sua curiosidade de volta à torre.

Adentrando, vê uma escura antecâmera fria e com um musgo deveras cheiroso, algumas tapeçarias bem trabalhadas. Logo após, vê o salão principal da torre, a garota ajoelhada, rindo em êxtase enquanto usava o sangue de suas feridas como tinta e uma pedra como pincel, escrevendo algo na parede. Um cristal emite uma reconfortante e suave luz púrpura, forte o suficiente para iluminar um pouco a câmara mas sem ser invasiva. Rodando os olhos, vê uma quantidade infindável de runas e coisas escritas nas paredes da torre. Imediatamente sai de seu transe, enquanto memórias de guerras, acordos, criaturas fantásticas e dragões invade sua mente. Flashes sobre magnificas explosões mágicas, ossadas de criaturas totalmente de cristal e organizações que o tempo esqueceu passam na cabeça do rapaz. Sem pensar, ele se dirige ao canto mais afetado pela penumbra do cristal e com uma pedra talha o nome que invadia sua mente e falava com ele: Abyss.

Suas últimas lembranças são cavaleiros com um banner totalmente negro aportando de um barco e sendo emboscado por magos jocosamente ornamentados como tais. Essa cilada tira a vida dos cavaleiros, com Abyss morrendo numa tentativa de investida. Volta a si na torre, agora sem transe, e vê a garota, já com frio um pouco mais consciente de si, ao lado da inscrição em sangue Αθήνα. Ela desmaia logo em seguida, e Bruno, ou melhor, Abyss é impelido a ir até ela, mas no que pensa em dar o primeiro passo, também desmaia.

Acorda no hospital universitário, sua mãe e irmã no quarto. Ao que parece havia se afogado e delirado. O sonho era uma lembrança recorrente nos dois dias que passou no hospital porém. Quando já pensava em desistir dele, no dia de sua alta, quando a família não havia ainda chegado, a estranha música começa a tocar novamente em sua mente, dessa vez numa espécie de tema ou prelúdio. Antes que tivesse tempo de se assustar, uma velha senhora de bengala entra em seu quarto e se apresenta:

-Saudações pequeno, eu sou Baba Katarina e precisamos conversar sobre o que você acha que sonho…

Do abismo à escadaria

Salvação Sophuz